– Eu acho que vou embora…
Kousuke estava incomodado. Seu casaco o esquentava além do nescessário enquanto seguia seu colega da faculdade por um corredor mal-ilunimado. As lâmpadas incandescentes transmitiam a atmosfera de um beco obscuro saído de alguma revista em quadrinhos, daquelas que retratam vigilantes vestidos de preto em uma eterna luta contra os vilões mais degenerados da cidade. As paredes de alvenaria exibiam uma mistura de desenhos (ou seriam palavras?) ininteligíveis pichadas em seus tijolos, alternados com pôsteres de bandas saídas do porão de alguma casa num bairro mal-frequentado. No caminho até aquele local extremamente hostil – pelo menos para Kousuke – ele havia pisado numa poça de água e agora seu pé esquerdo congelava enquanto seu pescoço se enchia de suor.
Ele ajeitou seus óculos e tentou se lembrar de como ele havia se metido naquela situação. Kousuke sempre fora uma pessoa quieta. Seu modus operandi no campus era “evitar problemas”. Ele falava apenas o necessário para absorver o máximo de suas aulas. De uma aula para outra, da classe para a biblioteca e então para seu quarto, onde ele estudava mais um pouco, antes de dormir, Kousuke mal tinha contato com o que a sociedade caracterizava como “amigos”. Ele gostava do bibliotecário da faculdade, no entanto. Era um senhor que também não falava nada além do nescessário, sempre com um semblante fechado e o nariz enfiado em algum volume gigante de alguma prateleira bem empoeirada. Kousuke simpatizava com aquele bom senhor.
Seus três anos de faculdade haviam passado sem nenhuma complicação e isso era uma causa para orgulho. Nenhum trote, saídas para beber, festas, encontros… Paz. Isso não significava que ele não escutava o que falavam sobre ele pelas costas. Quando se é silencioso, escutamos muito mais do que as pessoas pensam. Mas Kousuke gostava dessas fofocas. “Ele é estranho.”, “Que nerd…”, “Coitado, não tem amigos.”, “Ele precisa se tratar…”. Tudo indicava a mesma coisa: Sua paz iria continuar sem perturbações.
Kousuke gostava de ter controle em sua vida. Ele gostava de seu relógio de pulso, de quartz suíço, que reinava seu dia-a-dia. Ele gostava do menu da cafeteria da faculdade, que nunca havia mudado desde que ele se mudara para o campus. Ele gostava de ter um quarto só dele, embora fosse num prédio extremamente velho e úmido, um dos mais antigos do campus. Ele gostava da loja de conveniências que ficava a exatos 8 minutos de distância do seu prédio – onde ele comprava a sua marca predileta de bolinho de chocolate, um bolinho ao final da noite, sempre.
Kousuke não gostava de pessoas. Pessoas, ao contrário do seu relógio, do menu da cafeteria e dos estoques de sua loja de conveniências predileta, eram imprevisíveis. Interações que começavam com um “tudo bem?” poderiam terminar de milhares de maneiras possíveis, muitas das quais Kousuke frequentemente imaginava e temia. Interações sociais, no entanto, eram um mal necessário para se manter o equilíbrio divino que havia conquistado. Kousuke se permitia pequenas interações – na cafeteria, na loja de conveniências, na biblioteca, com os professores – para que sua paz continuasse. Ele enxergava isso como um sacrifício em prol de um bem maior e se planejava o melhor possível para lidar com quaisquer empecilhos e imprevistos. Por três anos, ele nunca perdeu o controle. Então um garoto chamado Gustavo apareceu e destruiu a paz que havia permeado sua vida até então.
Gustavo era um aluno de intercâmbio vindo do Brasil, para estudar mecatrônica na mesma faculdade de Kousuke. Em sua primeira aula, ele trancou seus olhos no garoto japonês e sem hesitar o coagiu a uma longa e desconfortável conversa sobre como a cultura japonesa era impressionante e as animações japonesas o inspiravam – humilhavam esses filminhos da disney e a indústria americana, por favor – e a música de lá e a comida que era “umai” e depois disso Kousuke não conseguia mais ouvir nada, apenas as paredes invisíveis de seu castelo, seu reino de paz, se quebrando.
Gustavo era como um agente do mal para Kousuke. Ele insistentemente o procurava em todos os lugares, chegando ao ponto de conspurcar o mais sagrado local da faculdade, a biblioteca. Gustavo apresentava outras pessoas para Kousuke, que não sabia o que fazer a não ser esboçar um sorriso amarelado e inclinar a cabeça, um costume que havia absorvido de seus pais. A paz não existia mais para Kousuke e a faculdade havia virado um grande complexo de prédios, pessoas e objetos com um objetivo: Tortura. Desesperado, ele arquitetou meios de se desvencilhar daquela pessoa desagradável, a ponto de trocar horários de aulas, mudar seus hábitos alimentares e suas atividades acadêmicas, mas nada parecia funcionar. Após alguns dias, Gustavo reaparecia com seu sorriso brilhante, sua voz excessivamente alta e o contato físico – argh, o contato físico. O ápice do caos era quando Gustavo colocava o braço por cima do pescoço dele, como se eles fossem melhores amigos e começava a falar de alguma coisa sem nexo.
E foi exatamente assim que ele foi parar num corredor mal-iluminado. Logo após as aulas e a sessão de estudos na biblioteca – que haviam acontecido sem a intromissão de Gustavo – o brasileiro chegou, justamente quando estava se dirigindo para seu prédio velho e úmido, para o único lugar que ainda não fora profanado pelo agente do mal.
– Kousuke!
O torpor se espalhou por seu corpo e o desespero tomou conta de sua cabeça, acelerando seu coração e o fazendo suar. Gustavo começou a falar sobre um show de bandas underground que estava acontecendo na cidade e uma das bandas tinha uma vocalista japonesa e você precisa ir comigo e eu não vou aceitar um não como resposta e vamos agora, para chegarmos lá a tempo e quando Kousuke se deu conta, ele estava num lugar escuro e desconhecido, com os olhos arregalados, seguindo debilmente as costas de Gustavo, navegando por corredores duvidosos e cruzando com pessoas de aparências obscuras.
Eles haviam chegado num grande portão de ferro, onde um grande homem sem cabelo e vestindo um terno preto servia de porteiro para os corajosos que ousassem atravessar o portão.
– Eu realmente gostaria de ir embora…
-Então, o nome dessa banda é super louco, Kou! Algo como… hã… ten… tengam toppus.. largus… É um nome gigantesco, mas é japonês, deve ser super da hora! E eles…
– Por favor, vamos voltar?
-… vão começar a tocar exatamente agora, olha que coincidência!
– Gus-Gustavo…
– Parece que é o primeiro gig de verdade dessa banda, porque eles vão ser a primeira banda a tocar–
Kousuke então, fez algo que ele nunca havia se permitido fazer.
Ele perdeu o controle.
– GUSTAVO!
O aluno de intercâmbio imediatamente parou de falar, assustado, pelo grito de seu colega e amigo, normalmente tão calmo e calado. Alguns dos punks que estavam perto os encararam com ar de desdém e então voltaram para seus cigarros.
– Kou… você tá legal?
– Eu… Eu não estou legal. Eu não quero estar aqui. Eu não quero continuar aqui. Eu vou embora.
Logo após o vômito verbal e emocional, um pequeno silêncio se seguiu, onde Gustavo olhou desconfortável para o lado, com uma expressão machucada. Kousuke, para sua surpresa, se sentiu mais desconfortável ainda pela expressão de dor daquele garoto insuportável. Ele não entendia aquelas interações. Como uma pessoa pode agir de maneira tão egoísta e malévola e ao ouvir uma reclamação, se mostrar machucado e inocente? O sangue de Kousuke fervia enquanto calafrios passavam por suas costas. O silêncio estava ficando insuportável.
– Ahn… Desculpe, Kousuke. Eu não queria te causar nenhum problema. – Gustavo começou então, a falar, de maneira desconcertada, olhando para o chão.
– Eu pensava que você também ia gostar. Eu queria muito ver esse show…
– Você… Não me conhece, Gustavo.
– Eu… Tem razão. Me desculpe…
Mais um silêncio pairou entre os dois, enquanto o barulho atrás do portão de ferro aumentou consideravelmente.
– Eu… só queria alguma companhia para ver o show comigo.
Silêncio.
– E você é meio que meu único amigo…
Gustavo se calou novamente, mostrando-se arrependido e triste. Aquilo bagunçou ainda mais sua cabeça. Por um breve momento, ele pesou os prós e contras, arquitetou possíveis saídas, ensaiou conversas e ponderou a situação. Então, dando um longo suspiro, ele disse que poderia assistir a uma música com ele, mas que depois ele gostaria que Gustavo o levasse de volta para a faculdade.
O brasileiro olhou para ele e abriu um sorriso genuíno e o abraçou, o que foi um pequeno momento de terror, mas que ele iria aguentar – ele disse a si mesmo – pois em breve ele iria se livrar dessa situação de uma vez por todas. Apenas mais um pouco, ele recitava dentro de sua cabeça como um mantra, e eu não vou mais precisar passar por nada disso. Um último sacrifício para o fim desse pesadelo.
Os dois se dirigiram para o portão e Gustavo entregou os ingressos para o homem de terno, que em troca, abriu o portão para um mar de gente e som. Kousuke sentiu o impacto das caixas de som em seus ossos e pensou se ele realmente havia feito uma escolha sábia em ir em frente com essa idéia de escutar apenas uma música.
O som estava alto. Tão alto que ele não escutava mais nada do que Gustavo falava, embora o garoto gesticulasse euforicamente. Havia muitas pessoas e o local era relativamente pequeno para comportar tanta gente, forçando os dois alunos a se esgueirar pelo mar de gente, tentando chegar perto do palco. A tarefa não foi tão difícil assim, no entanto. Muitas pessoas pareciam não estar animadas com a banda que estava começando a tocar. No palco, um homem negro de rastafári dedilhava um saxofone em uníssono com um uma garota punk na bateria e um homem alto e careca, de terno, que tocava um baixo. A guitarra estranhamente fazia o com de uma citarra – talvez algum efeito sonoro – sendo dedilhada por outro homem alto, com o cabelo arrepiado.
Eles haviam navegado até a frente do palco, mas não havia vocalista. Os músicos continuavam tocando uma música que aos poucos começava a ressoar com a platéia. Kousuke e Gustavo sentiram que estavam sendo levemente pressionados contra a grade do pequeno palco. Havia um microfone bem em frente a eles, mas ainda nenhum sinal de alguém que fosse usá-lo. O som da citarra foi substituído por uma guitarra com distorção e a música continuava a aumentar, em volume e ritmo.
Kousuke sentiu algo estranho. Ele notou que a música estava afetando a todos presentes. Todos eles começaram a prestar atenção ao show, como se algo estivesse prestes a acontecer. Por um momento, ele jurou que as luzes diminuíram e tudo começou a se mover em câmera lenta.
Então, sem que ninguém percebesse, alguém estava em pé, em frente ao microfone, olhando para a platéia em silêncio. Era uma garota de cabelos castanho escuros, olhos puxados, usando um bolero por cima de uma blusa vermelha que caía como um vestido e uma calça cargo marrom presa por um grande cinto. Seu cabelo estava preso por uma fita que combinava com sua blusa e ela observava a todos na platéia.
Lentamente, a garota desamarrou o laço da fita e seu cabelo se derramou pelos ombros e parte de seu rosto. Ela amarrou a fita no microfone e observou todos por mais um momento. Apesar da música alta, era como se o silêncio tivesse tomado conta de tudo. Então ela olhou nos olhos de Kousuke e olhando pra ele, ela começou a cantar.
Com a primeira palavra, a misteriosa garota dominou a todos. A euforia tomou conta da platéia, que vibrava com a música e pulava euforicamente. Apenas uma pessoa não pulava. Ele apenas assistia mesmerizado à ela, enquanto cada célula de seu corpo parecia absorver a música que entrava pelos ouvidos, olhos, pele e coração.
Baka na furi itsumade shite? / Até quando você vai se fingir de bobo?
Kousuke estava preso em admiração. Alguma coisa começou a bater forte dentro dele. Ele percebeu que era seu coração. Ele batia mais forte do que os gritos à sua volta. Ele estava indefeso e algo começou a acontecer dentro dele.
Sono VEERU hayaku nugina yo! / Arranque logo esse disfarçe!
Era uma sensação estranha. Parecia que sua pele estava descascando e algo enorme estava sendo puxado de dentro dele. Ele começou a sentir que flutuava, de tão leve que estava. E pairando, a música continuava a dissolvê-lo, até restar apenas a alma.
Hontou no anata misete… / Mostre-me quem você realmente é…
Kousuke não sentia mais os empurrões nem sentia calor, mesmo ainda estando com seu casaco. Havia apenas ela, num palco iluminado, abrindo a vida dele em frente a seus olhos.
Yarikirenai ima no mama ja! / Você não pode continuar com essa farça para sempre!
A multidão foi ao delírio. Kousuke fechou os olhos e chorou.
Ele só recobrou a consciência quando estava na porta de seu quarto. Ele não se lembrava o que havia acontecido após o fim da música. Não fazia idéia de como havia voltado para casa nem como as coisas ficaram com o estudante de intercâmbio. A única coisa que ficou indelevelmente marcada em sua memória era o olhar da garota misteriosa, que enxergou quem ele realmente era.
Kousuke, abrindo a porta, se perguntou quem ele realmente era. Em poucos minutos, ele havia adormecido em sua cama, ainda com seu casado e seu tênis molhado, afundando num sonho longo e profundo sobre uma garota que abriu seu coração.